top of page

Prática Deliberada: Como Transformar Repetição em Desenvolvimento de Habilidade

há 13 horas
5 min de leitura

Repetir uma atividade várias vezes não significa, necessariamente, melhorar o desempenho. Um profissional pode executar a mesma tarefa durante anos e continuar cometendo os mesmos erros ou utilizando estratégias pouco eficientes.


Isso acontece porque experiência e repetição não garantem, por si só, o desenvolvimento de uma habilidade.


A prática deliberada, conceito associado às pesquisas de K. Anders Ericsson e colaboradores, propõe uma abordagem mais estruturada: praticar aspectos específicos do desempenho, receber feedback e realizar ajustes progressivos.


No Design Instrucional, compreender esse princípio ajuda a desenvolver experiências que vão além da exposição ao conteúdo e oferecem oportunidades reais de aperfeiçoamento.


1. O Que é Prática Deliberada?


A prática deliberada é uma forma estruturada de treinamento voltada ao aperfeiçoamento de habilidades específicas.


Diferentemente da repetição automática, ela envolve objetivos claros, tarefas desafiadoras, atenção ao desempenho e feedback que permita identificar oportunidades de melhoria.


Imagine um profissional que precisa desenvolver sua capacidade de conduzir apresentações.


Simplesmente realizar várias apresentações pode gerar experiência, mas não necessariamente melhorar aspectos como clareza, organização das ideias ou comunicação com o público.


Uma prática estruturada poderia concentrar-se inicialmente na abertura da apresentação, depois na explicação de conceitos complexos e, posteriormente, na condução de perguntas.


Cada etapa teria critérios específicos e oportunidades de correção.


O objetivo não é apenas repetir uma tarefa, mas melhorar intencionalmente a maneira como ela é executada.


2. Defina Qual Habilidade Precisa Ser Desenvolvida


Um erro comum é propor atividades práticas com objetivos muito amplos.


Imagine um treinamento de liderança cujo objetivo seja “melhorar a comunicação”.


Essa definição não esclarece quais comportamentos precisam ser desenvolvidos.

Podemos tornar o objetivo mais específico:


“Formular perguntas abertas para compreender a perspectiva do colaborador durante uma conversa de feedback.”


Agora conseguimos criar uma atividade direcionada e observar se o participante demonstra a habilidade.


Quanto mais claro for o comportamento esperado, mais fácil será estruturar a prática e oferecer feedback relevante.


3. Divida Habilidades Complexas em Componentes


Muitas competências profissionais envolvem diferentes conhecimentos e comportamentos que precisam ser coordenados.


A condução de uma negociação, por exemplo, exige preparação, escuta, análise de interesses, argumentação e tomada de decisão.


Solicitar que um iniciante execute todas essas ações simultaneamente pode tornar a atividade excessivamente complexa.


Uma alternativa é organizar a prática em componentes:

Habilidade

Foco da prática

Escuta ativa

Identificar informações relevantes na fala do interlocutor

Formulação de perguntas

Elaborar perguntas que aprofundem a compreensão

Argumentação

Sustentar propostas com critérios objetivos

Negociação

Comparar alternativas e construir acordos

Comunicação

Explicar decisões com clareza

Depois de desenvolver os componentes, podemos propor situações que exijam sua utilização integrada.


Essa progressão ajuda a administrar a complexidade e permite trabalhar dificuldades específicas antes de avançar.


4. Ofereça Feedback Específico e Utilizável


O feedback é um elemento importante para transformar a prática em desenvolvimento.

Imagine que um participante realiza uma simulação de atendimento e recebe apenas o comentário:

“Você precisa melhorar sua comunicação.”

Essa orientação é muito ampla e não indica o que deveria ser modificado.

Um feedback mais útil seria:

“Você explicou corretamente o procedimento, mas apresentou a solução antes de investigar a necessidade do cliente. Na próxima tentativa, formule pelo menos duas perguntas para compreender melhor a situação.”

Agora existe uma indicação clara sobre o comportamento observado e o ajuste necessário.


No Design Instrucional, o feedback precisa estar conectado aos critérios de desempenho e oferecer informações que possam ser aplicadas na próxima tentativa.


5. Crie Oportunidades para Tentar Novamente


Uma atividade prática seguida de feedback pode contribuir para a aprendizagem, mas seu potencial aumenta quando o participante tem oportunidade de utilizar as orientações recebidas.


Imagine uma simulação de conversa difícil.


Na primeira tentativa, o participante apresenta dificuldades para formular perguntas e ouvir o interlocutor.


Após receber feedback, ele realiza uma nova simulação, agora concentrando sua atenção nesses comportamentos.


Essa segunda tentativa permite verificar se houve melhoria e identificar quais aspectos ainda precisam ser desenvolvidos.


Uma sequência possível é:


Prática → Observação → Feedback → Ajuste → Nova prática.


O ciclo pode ser repetido conforme a complexidade da habilidade e a evolução do participante.


O importante é que cada nova tentativa tenha um propósito, evitando a repetição mecânica da mesma atividade.


6. Ajuste o Nível de Dificuldade Progressivamente


Para desenvolver habilidades, as atividades precisam apresentar desafios compatíveis com o nível de domínio do participante.


Se a tarefa é simples demais, pode oferecer poucas oportunidades de aperfeiçoamento. Se for complexa demais, o participante pode não conseguir identificar como melhorar.

Imagine um treinamento sobre tomada de decisão.


Inicialmente, podemos apresentar situações com poucas variáveis e critérios explícitos.

Depois, introduzir informações incompletas, alternativas semelhantes e consequências diferentes.


Em etapas mais avançadas, podemos propor problemas que exijam priorização, análise de riscos e justificativa das decisões.


Essa progressão permite aumentar a complexidade conforme o participante demonstra maior domínio.


7. Diferencie Prática Deliberada de Repetição Automática


Nem toda repetição constitui prática deliberada.


Veja algumas diferenças:


Repetição automática

Prática deliberada

Executar a mesma tarefa várias vezes

Trabalhar aspectos específicos da habilidade

Repetir sem critérios claros

Utilizar objetivos observáveis

Receber pouco feedback

Receber orientações sobre o desempenho

Manter a mesma dificuldade

Ajustar os desafios progressivamente

Priorizar quantidade de tentativas

Priorizar qualidade e melhoria da execução

É importante destacar que, na literatura científica, a prática deliberada possui características específicas, frequentemente envolvendo atividades estruturadas e acompanhamento especializado.


Em treinamentos corporativos, nem toda atividade com repetição e feedback atende integralmente a essa definição. Ainda assim, seus princípios podem orientar o desenvolvimento de práticas mais intencionais e eficazes.


8. Utilize Situações Próximas da Realidade Profissional


A prática precisa preparar o participante para as condições em que a habilidade será utilizada.


Imagine um treinamento sobre atendimento ao cliente.


Em vez de solicitar apenas que o participante memorize etapas, podemos apresentar situações com diferentes perfis de clientes, informações incompletas e decisões que exigem aplicação de critérios.


Também podemos variar gradualmente os cenários para evitar que o participante aprenda apenas a responder a um exemplo específico.


O objetivo é desenvolver a capacidade de reconhecer situações e selecionar comportamentos adequados.


Entretanto, a prática não precisa reproduzir toda a complexidade do trabalho desde o início. Podemos começar com atividades simplificadas e avançar progressivamente para situações mais realistas.


Como Aplicar a Prática Deliberada em Treinamentos


Para incorporar seus princípios ao planejamento instrucional, podemos seguir uma sequência:


1. Identifique a habilidade. Defina o comportamento que precisa ser desenvolvido.

2. Estabeleça critérios de desempenho. Determine o que caracteriza uma boa execução.

3. Analise o nível atual do participante. Identifique pontos fortes e dificuldades.

4. Crie atividades específicas. Desenvolva exercícios direcionados aos aspectos que precisam melhorar.

5. Ofereça feedback. Explique quais comportamentos foram adequados e quais exigem ajustes.

6. Permita novas tentativas. Crie oportunidades para aplicar as orientações.

7. Aumente a complexidade. Introduza desafios progressivamente.

8. Verifique a evolução. Compare evidências de desempenho ao longo das atividades.


Essa estrutura pode ser utilizada em simulações, role-plays, treinamentos técnicos, atividades operacionais e programas de desenvolvimento de competências.


Conclusão


A prática deliberada reforça uma ideia importante: o desenvolvimento de habilidades depende não apenas da quantidade de prática, mas também de como ela é organizada.


Repetir uma atividade pode contribuir para a familiaridade e a fluência, mas melhorar o desempenho exige identificar dificuldades, estabelecer objetivos específicos, receber feedback e realizar ajustes.


No Design Instrucional, isso significa planejar atividades que permitam ao participante observar sua evolução e desenvolver maior domínio sobre aquilo que precisa executar.


Por isso, antes de incluir mais um exercício em um treinamento, pergunte:


“Esta atividade oferece uma oportunidade real de melhorar o desempenho ou apenas solicita que o participante repita aquilo que já sabe fazer?”


A resposta pode ajudar a transformar exercícios comuns em experiências de desenvolvimento mais intencionais.


Porque desenvolver uma habilidade não significa simplesmente fazer mais vezes. Significa aprender a fazer progressivamente melhor.


IDI Instituto de Desenho Instrucional


Comentários


bottom of page