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Desejable Difficulties: Por Que Algumas Dificuldades Podem Melhorar a Aprendizagem

há 38 minutos
6 min de leitura

Facilitar a aprendizagem é um dos principais objetivos do Design Instrucional. Entretanto, isso não significa que todas as atividades devam ser simples ou que o participante precise encontrar respostas imediatamente.


Em determinadas situações, um esforço cognitivo maior pode contribuir para uma aprendizagem mais duradoura.


É essa a ideia central das Desirable Difficulties, ou dificuldades desejáveis, conceito associado às pesquisas de Robert Bjork e Elizabeth Bjork sobre aprendizagem e memória.


A proposta é compreender que algumas dificuldades, quando planejadas adequadamente, podem fortalecer a retenção, a recuperação de informações e a capacidade de utilizar conhecimentos em novas situações.


No Design Instrucional, esse princípio ajuda a desenvolver experiências que não se limitam à facilidade de compreensão imediata, mas também favorecem a aprendizagem ao longo do tempo.


1. O Que São Desirable Difficulties?


Desirable Difficulties são condições de aprendizagem que podem tornar o desempenho inicial mais trabalhoso, mas contribuir para melhores resultados de retenção e transferência posteriormente.


Imagine dois participantes estudando determinado conteúdo.


O primeiro relê o mesmo material várias vezes e percebe que consegue reconhecer rapidamente as informações.


O segundo estuda o conteúdo e, depois de algum tempo, tenta recuperar os principais conceitos sem consultar o material.


A segunda atividade pode parecer mais difícil. Entretanto, o esforço de recuperação pode fortalecer a aprendizagem.


Isso acontece porque a facilidade durante o estudo nem sempre corresponde à qualidade da aprendizagem que será demonstrada posteriormente.


É importante destacar que nem toda dificuldade é desejável. Para contribuir com a aprendizagem, ela precisa ser compatível com o conhecimento prévio, os recursos disponíveis e a capacidade do participante de realizar a atividade.


2. Diferencie Desempenho Imediato de Aprendizagem Duradoura


Um dos principais desafios na avaliação de experiências educacionais é distinguir o desempenho observado durante o treinamento da aprendizagem que permanece ao longo do tempo.


Imagine uma atividade em que o participante responde a dez questões imediatamente após assistir a uma videoaula.


Ele pode apresentar excelente desempenho porque as informações ainda estão recentes.

Entretanto, isso não garante que conseguirá recuperar e aplicar o conteúdo algumas semanas depois.


Uma atividade que exige maior esforço inicialmente pode produzir resultados imediatos menos expressivos, mas favorecer a retenção posterior.


Por isso, não devemos avaliar a qualidade de uma experiência apenas pela facilidade com que os participantes realizam as atividades durante o curso.


Aprender não é apenas conseguir responder corretamente agora, mas desenvolver conhecimentos e habilidades que possam ser utilizados posteriormente.


3. Retrieval Practice: Aprender ao Recuperar Informações


A Retrieval Practice, ou prática de recuperação, consiste em tentar recuperar informações da memória sem consultar imediatamente o material estudado.


Imagine um treinamento sobre procedimentos de segurança.


Após apresentar as orientações, podemos solicitar que os participantes identifiquem as principais etapas do procedimento sem consultar o conteúdo.


Em seguida, oferecemos feedback e permitimos que revisem as respostas.


Essa atividade exige mais esforço do que simplesmente reler as instruções.


Entretanto, a tentativa de recuperação, especialmente quando acompanhada de feedback adequado, pode contribuir para fortalecer a memória.


A prática pode ser incorporada por meio de perguntas, exercícios, explicações orais ou pequenas atividades de recordação.


O objetivo não é transformar todas as atividades em provas, mas criar oportunidades para que o participante utilize ativamente aquilo que aprendeu.


4. Spacing: Distribuir a Aprendizagem ao Longo do Tempo


Outra estratégia relacionada às dificuldades desejáveis é a prática espaçada, conhecida como Spacing.


Em vez de concentrar todo o estudo em um único momento, distribuímos as oportunidades de aprendizagem ao longo do tempo.


Imagine um treinamento sobre atendimento ao cliente.


Uma abordagem concentrada poderia apresentar todos os conteúdos e exercícios em uma única sessão extensa.


Uma abordagem espaçada poderia organizar o aprendizado em diferentes momentos, incluindo revisões e atividades práticas realizadas nos dias ou semanas seguintes.


O intervalo pode tornar a recuperação mais difícil, porque parte das informações já não está tão acessível.


Entretanto, quando a recuperação é bem-sucedida, esse esforço pode favorecer a retenção.


A duração ideal dos intervalos depende dos objetivos, da complexidade do conteúdo e do período durante o qual se espera que o conhecimento seja mantido.


5. Interleaving: Misturar Tipos de Problemas


O Interleaving, ou prática intercalada, consiste em alternar diferentes tipos de problemas ou habilidades durante o estudo.


Imagine um treinamento sobre análise de indicadores.


Em uma prática agrupada, o participante resolve primeiro várias questões sobre produtividade, depois várias sobre qualidade e, por último, questões sobre custos.


Na prática intercalada, os diferentes tipos de problemas aparecem misturados.


Essa organização exige que o participante identifique qual conceito ou procedimento deve utilizar em cada situação.


Embora possa tornar a atividade mais difícil inicialmente, a intercalação pode contribuir para desenvolver a capacidade de distinguir problemas e selecionar estratégias adequadas.


Entretanto, seus benefícios variam conforme o conteúdo e a natureza da habilidade. Em algumas situações, uma prática inicial mais organizada por categorias pode ser necessária antes da intercalação.


6. Variação de Contextos: Evitar a Dependência de um Único Exemplo


Outra possibilidade é apresentar diferentes situações que exijam a aplicação de um mesmo conhecimento.


Imagine um treinamento sobre comunicação assertiva.


Se todos os exercícios utilizarem situações semelhantes, o participante poderá aprender a reconhecer padrões específicos sem necessariamente desenvolver flexibilidade para atuar em outros contextos.


Podemos variar os cenários, apresentando conversas com colegas, clientes, lideranças e equipes.


Essa variação exige que o participante identifique os princípios relevantes e adapte sua aplicação.


O objetivo é evitar que a aprendizagem fique excessivamente associada a um único exemplo.


No Design Instrucional, essa estratégia pode contribuir para preparar os participantes para situações profissionais que apresentam características diferentes daquelas encontradas durante o treinamento.


7. Quando a Dificuldade Deixa de Ser Desejável?


Uma dificuldade só é desejável quando oferece condições para que o participante aprenda com o desafio.


Imagine um iniciante tentando resolver um problema complexo sem conhecer os conceitos fundamentais.


Nesse caso, a dificuldade pode gerar sobrecarga cognitiva e dificultar a aprendizagem.

O mesmo acontece quando as instruções são confusas, os recursos são inacessíveis ou a atividade exige conhecimentos que ainda não foram desenvolvidos.


Veja algumas diferenças:

Dificuldade potencialmente desejável

Dificuldade desnecessária

Recuperar um conceito sem consultar o material

Tentar adivinhar informações nunca ensinadas

Resolver problemas variados

Receber instruções ambíguas

Retomar conteúdos após intervalos

Ficar sem acesso ao suporte necessário

Aplicar conhecimentos em novos contextos

Executar tarefas muito acima do nível atual

Receber feedback após uma tentativa

Repetir erros sem orientação

O desafio precisa estar relacionado ao processo de aprendizagem, e não a obstáculos criados por um design inadequado.


8. Considere o Conhecimento Prévio dos Participantes


A mesma atividade pode representar um desafio produtivo para um participante experiente e uma dificuldade excessiva para um iniciante.


Imagine uma simulação de tomada de decisão.


Um profissional com experiência pode se beneficiar de um cenário com informações incompletas, múltiplas alternativas e consequências complexas.


Já um participante iniciante pode precisar de exemplos resolvidos, orientações e atividades mais estruturadas antes de enfrentar esse desafio.


Por isso, é importante ajustar o nível de dificuldade conforme a evolução da aprendizagem.

Uma sequência possível é começar com explicações e exemplos, avançar para práticas orientadas e, posteriormente, introduzir situações que exijam maior autonomia.


O desafio deve acompanhar o desenvolvimento da competência, não substituir o suporte necessário para construí-la.


9. Como Aplicar Desirable Difficulties no Design Instrucional


A aplicação das dificuldades desejáveis não exige transformar todo treinamento em uma experiência complexa.


Pequenas decisões instrucionais podem contribuir para tornar a aprendizagem mais ativa e duradoura.


Considere um programa de desenvolvimento de lideranças.


Após apresentar os princípios de uma conversa de feedback, podemos solicitar que os participantes recuperem as principais etapas sem consultar o material.


Alguns dias depois, podemos propor uma nova atividade sobre o mesmo tema.


Em seguida, apresentar situações diferentes, exigindo que os participantes escolham como conduzir cada conversa.


Ao longo do processo, o feedback ajuda a corrigir interpretações equivocadas e orientar novas tentativas.


Essa sequência combina recuperação, espaçamento, variação e aplicação.


Para planejar essas estratégias, vale considerar quatro perguntas:


1. O participante possui conhecimentos suficientes para enfrentar o desafio?

2. A dificuldade está relacionada ao objetivo de aprendizagem?

3. Existe feedback ou suporte adequado para corrigir erros?

4. A atividade contribui para a retenção ou aplicação futura do conhecimento?


Essas perguntas ajudam a diferenciar desafios produtivos de obstáculos desnecessários.


Conclusão


As Desirable Difficulties mostram que facilitar a aprendizagem não significa eliminar todo esforço do processo.


Em determinadas condições, recuperar informações, espaçar atividades, alternar problemas e aplicar conhecimentos em diferentes contextos pode contribuir para resultados mais duradouros.


Entretanto, essas estratégias precisam ser utilizadas com critério, considerando o conhecimento prévio, os objetivos e as características do público.


No Design Instrucional, o desafio é encontrar um equilíbrio entre oferecer suporte suficiente e criar oportunidades para que o participante desenvolva autonomia.


Por isso, antes de simplificar uma atividade, pergunte:

“Esta dificuldade está atrapalhando a aprendizagem ou oferecendo uma oportunidade importante para fortalecê-la?”


A resposta pode ajudar a construir experiências mais intencionais e eficazes.


Porque uma boa experiência de aprendizagem não é necessariamente aquela em que tudo parece fácil. É aquela em que o esforço exigido contribui para aprender melhor e por mais tempo.


IDI Instituto de Desenho Instrucional


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